O mais velho e o mais novo

Eram dois irmãos. O mais velho tinha fama de malandro, todo cheio de si. Gostava de farrear com os amigos, de curtir a vida… O mais novo era o intelectual da casa: lia, lia, lia… E preocupava pai, mãe, professores. Se imergia num mundo só dele, queria saber tudo, conhecer tudo, aprender tudo, absorver tudo ao mesmo tempo agora. Nem é preciso dizer que os dois não se davam bem. Um não existia para o outro, na verdade. Se esbarravam pela casa, dividiam o mesmo quarto… E nada de se darem bem. Até que um dia o destino deu a eles a oportunidade de trabalharem juntos em prol de um objetivo em comum.

Os dois foram iniciados na Ordem DeMolay. No mesmo dia. E tornaram-se duplamente irmãos. Por um instante, comemoraram juntos a conquista e o início de uma nova vida. Participavam das reuniões, opinavam, interagiam… Mas cada um na sua. Ainda não conversavam, não compartilhavam as dificuldades do trabalho em equipe, nem mesmo iam juntos para as reuniões – se possível, cada um ia por um caminho. E a situação começava a ficar evidente e constrangedora para o resto do grupo.

O mais velho, de repente, passou a focar sua energia e determinação extremas aos objetivos da Ordem. Trabalhava bem, tinha espírito de equipe, abraçava as causas da Ordem com unhas e dentes. O mais novo, da mesma forma, deu o que havia de melhor em si: conhecimento, instrução, raciocínio rápido, foco. Mal sabiam eles que se completavam. Na verdade, nunca souberam e, infelizmente, não acreditavam nisso.

E lá, no íntimo de cada um, havia uma pequena chama que queimava mais forte quando o irmão fazia algo de bom. O mais velho sentia-se envaidecido de ver que seu irmão mais novo sabia trilhar seus próprios passos e demonstrar isso aos demais; o mais novo tinha seu irmão mais velho como seu herói, aquele que ele sempre desejou ser e que era capaz de resolver qualquer problema. Mas o orgulho não deixava que essa chama explodisse dentro deles e se externalizasse. E os dois estavam condenados a viver eternamente com amor e admiração platônicos um pelo outro…

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O Cortês gostaria muito que histórias como essa tivesse finais felizes. Mas, infelizmente, sabe que às vezes nem mesmo as mais puras virtudes de nossa Ordem são capazes de reparar certos laços rompidos.

O maior segredo da Ordem DeMolay

Antes de qualquer coisa: este post pode parecer pessimista (a vibe negativa tá rondando o CdPQ ultimamente), mas vou tentar não sê-lo tanto.

Desde o início de nossas vidas como DeMolays, a gente aprende muitas coisas: virtudes, ensinamentos, palavras, toques, sinais… Diversos ensinamentos permanecem entre as paredes das Salas Capitulares: são os segredos, que nos unem e fundamentam a maior essência de nossa organização.

Por incrível que pareça, estes segredos não saem de nossas bocas para o mundo “profano” ouvir – por mais descuidados que possamos ser. Vejo este “cuidado” com tais ensinamentos como gratidão por parte de quem é acolhido por tantos outros com verdadeiro espírito de confiança.

Ah… Confiança. Eis a palavra. Junção da terceira, quarta e quinta virtudes, a confiança nasce de um processo. Requer convívio, paciência e a tão temida experiência. Temida, obviamente, por ser divisora de águas quando se confia em alguém: se fulano pisa na bola com você, a confiança fica abalada.

Quando somos iniciados, nossa confiança é tudo o que nos resta. Estamos a mercê de julgamentos e atitudes, sem nenhuma chance de reinvindicar direitos mínimos; na verdades, passamos por tais situações porque queremos – e nossa capacidade de confiar no desconhecido é colocada à prova.

Mas e quando a gente conhece? E quando a gente já tem anos e anos de convivívio, amizade estreitada com o passar do tempo e se considera, de verdade, algum irmão como um grande – ou melhor, em alguns casos – amigo?

A Ordem DeMolay possui lição para tudo: benefício da dúvida, tolerância, amizade… Valores mínimos que (em teoria) devemos ter para que exista um relacionamento saudável com alguém. Porém, os três pilares que permeiam a confiança – convívio, paciência e experiência – infelizmente não são adquiridos através de cerimônias bem elaboradas, mas sim com doses cavalares de tempo.

Confiando ou não, sabemos o quão valoroso é este sentimento. E o quão secreto e traiçoeiro ele pode ser. E só o equilíbrio entre razão e emoção podem dizer como, quando e em quem confiar.

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Sim, O Cortês é o mais desconfiado dos sete pára-quedistas e ainda assim já confiou demais e levou tinta.

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