O que vai fácil…

Se existe algo que nos faz todos realmente iguais é, na minha opinião, o livre arbítrio. Iguais e, exatamente na mesma medida, extremamente diferentes. Todos nós o possuímos e, ao utilizá-lo, traçamos nosso caminho de forma a nos diferenciar dos outros. E é o livre arbítrio que nos mostra o quanto valem nossas ações. Tenho passado por situações em que meu livre arbítrio tem colocado outras virtudes em xeque: honestidade, caráter, bom senso, fé… Cada um deles tem sido testados pelo meu poder de escolha: se é certo ou errado, se eu devo ou não, se prejudica a mim ou a outrem. Enfim, livre arbítrio é, ao meu ver, a única ferramenta que possuímos para treinar a nossa consciência.

A administradora do meu condomínio ligou dizendo que eu tinha um crédito com eles no valor de um mês de aluguel que, teoricamente, eu havia pago duas vezes no mesmo mês. Conhecendo-me como ninguém, desconfiei de que tratava-se de um erro de sistema, mas o “capetinha no ombro” já veio cochichar no meu ouvido que tal situação não poderia ter sido mais providencial. Racionalmente, fui procurar o mínimo de indícios que me fizessem ter cometido a proeza de pagar duas vezes um aluguel que, de tão caro que é, já é rachado com outra pessoa. Resultado: nada. Pesquisando nas minhas ridículas anotações financeiras, constatei que era financeiramente impossível que eu tivesse pago, mas ainda assim resolvi ir até a administradora me informar melhor. E o capetinha todo todo, achando que ia ganhar uma bolada.

Ao chegar lá, não consegui omitir o fato de que não tinha dois comprovantes e que a situação era absurda. Não houve peso na consciência ou medo, mas sim senso de responsabilidade e honestidade. Resultado: eu tenho, sim, um crédito com eles, mas é de um valor bem menor e, caso tivesse pego o dinheiro, a responsável pela “descoberta” teria que repor do próprio bolso depois. Ou, na melhor (ou pior, vá saber) das hipóteses, me pediriam o dinheiro de volta. E conhecendo-me como ninguém eu sei que passaria um paerto danado: em dois tempos já teria gastado tudo e só Deus sabe como iria repor toda a grana.

Seja com uma situação parecida com a minha ou em outras cujo livre arbítrio coloca nossa consciência contra a parede, aprendi há muito tempo atrás que tudo aquilo que vem fácil acaba indo fácil também. Não há sacrifício, não há esforço para conquistar um objetivo e, conseqüentemente, não há a valorização necessária do “resultado”. Em alguns casos há até mesmo um pouco de perda da legitimidade. E da mesma forma que a surpresa chega – surpreendente, prometendo mudar as nossas vidas – ela vai embora: surpreendente, prometendo mudar as nossas vidas. Afinal de contas, o erro foi tão bem sustentado que as pernas acabaram não dando conta do recado. E quanto maior a altura, maior o tombo.

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O capetinha no ombro dO Cortês já começou a fazer as malas para ir embora. E o anjinho no outro ombro ficou todo satisfeito: ele sabe que O Cortês pode ter perdido uma bolada, mas não há preço que pague sua integridade.