Saudade é tempo presente.

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

É tão subjetivo falar em “Saudade”. Ela parece algo que é solto no ar, que não se pega, não se vê, e vem quando menos esperamos e vai sem ao menos percebermos. Ela está intimamente ligada à morte e à distância. Essa foi a teoria que nos passaram, saudade é um sentimento de vazio por sentir falta de algo ou alguém.

Pelo dicionário, saudade é a lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar a ver ou a possuir; pesar pela ausência de alguém que nos é querido; nostalgia.

Eu tenho isso junto comigo quase todos os dias.
Um sentimento que transborda e vai além do tempo, busca resquícios e detalhes minuciosos de tempos antigos. Vontade de voltar, reviver, refazer, rever, e como é difícil fazer esse prefixo “re” ser REtirado dali e passar a RE-existir tudo aquilo que um dia se foi.

A Iniciação, os amigos, as viagens, as primas, as vontades, as brigas, as felicidades, as campanhas, risadas, choros, dores, testemunhos vivos que deixaram marcas e que são cheios de adversidades entre si.

Creio, e ainda defenderei a tese de que nós vivemos em 2 mundos. Um é o factual e outro é real, o Factual é o mundo imaginário, o famoso “contos de fadas” que desde criança sonhamos, são aqueles momentos que nos fazem esquecer do mundo, dos problemas, das coisas ruins que nos aguardam. O real é o mundo em si, a tão inalterada rotina, cansaço, desgaste, ambição e vontades e desejos e excessos.

Quando passamos muito tempo como “fugitivos” do mundo real, vivendo num mundo imaginário (factual) nos acostumamos a não ver os problemas do mundo, e esquecer de onde viemos, o que fazemos e para onde vamos. Até que chega a hora de sair do conto de fadas e voltar para o mundo real. O mundo vai ao chão em fração de segundos, e um pesar imenso de nostalgia e saudade nos adentra o peito e nos choca.

Um medo imenso nos enche a alma, e uma vontade de não ir embora, parar no tempo, viver e reviver momentos chega e não quer sair mais.

Descobri no último fim de semana, durante uma pausa que fiz nos trabalhos Demolay, que o que eu estava sentindo, nada mais é do que “saudade do que não passou”.

Uma mistura de “ eu estou feliz aqui” com “amanha vou embora”, “mas aqui está tão bom”, “mas eu tenho que ir” e a conseqüência dessa reflexão é o “aproveitar mais ainda  cada segundo do conto de fadas” para que possamos assim voltar ao mundo real com a verdadeira sensação de “eu aproveitei tudo o que eu pude”.

A maior dor da saudade é pensar que não fizemos tudo aquilo que podíamos fazer. O arrependimento pelo não feito é dolorido demais quando analisado.

Se as pessoas tivessem mais saudade do que não passou, os momentos seriam melhores, mais aproveitados, mais desfrutados, as fotos seriam melhores, os sorrisos mais altos, as mãos mais caridosas, os pés mais descalços, os pulos mais infantis, as caras e bocas mais espontâneas e toda saudade não seria assim.

 

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberto ao peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

 

A saudade que O Reverente sente é a saudade do ontem, com gostinho de hoje. Era a aurora que agora já não é a saudade maior. A minha saudade é a saudade do meio dia…aquela que não tardou e que assim como a aurora, chegou, viveu e passou. Ah…se eu pudesse voltar…no meio dia da minha vida, creio que eu faria tudo igual, tudo de novo só que com gostinho de novo.

3 Comentários

  1. Muito bom Reverente. Traduziu os sentimentos que também são meus!
    Coincidência ou não, pensei nessa primeira poesia durante todo o dia…
    Abração”!

  2. Corrigindo, primeira parte da poesia…. 🙂

  3. Roubou o mote de um texto que há tempos planejava, mas não tinha coragem de escrever.

    A saudade das coisas que poderiam a vir acontecer que nos toma o peito é sufocante, claudicante, mas ao mesmo tempo boa e, por que não dizer, saudosa.

    Viver intensamente esse momentos, talvez seja um diferencial para todos nós!


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